§ 04 · Tendências

Colocando o "I" no BIM: modelagem, informação e cadeia produtiva

Por que o futuro do projeto de arquitetura passa muito mais pela informação do que pelo modelo tridimensional em si.

Publicado em
02 fev 2026
Leitura
13 min
Autores
Miriam Roux A. Addor · Miriam Dardes de Almeida Castanho · Henrique Cambiaghi · Joyce Paula Martin Delatorre · Eduardo Sampaio Nardelli · André Lompreta de Oliveira
Detalhe interior com materialidade e camadas construtivas.
Objetos paramétricos: geometria, material, tempo, custo e desempenho num único modelo consistente.

O advento do BIMBuilding Information Modeling, modelagem de informação da construção — está gerando mudanças significativas em toda a cadeia da construção civil. O processo sai da representação bidimensional em direção a uma realidade n-dimensional, respondendo à necessidade de reduzir erros num fluxo de trabalho cada vez mais complexo.

Por isso, quando falamos de BIM estamos nos referindo muito mais ao “Information” do que ao “Building” ou ao “Modeling”. O modelo é meio; a consistência da informação é o fim.

Uma breve linha do tempo

  • Fim dos anos 1980 — Jerry Laiserin (Princeton) dá origem à IAI, embrião da atual BuildingSMART.
  • 1987 — Hungria lança o Archicad (Graphisoft), primeiro software com ferramentas de BIM.
  • 1992 — Frank Gehry monta equipe especializada em suporte tecnológico ao projeto; em 2002, vira Gehry Technologies.
  • 1993 → escritório ONUMA desenvolve e usa o Onuma Open Architecture, de tecnologia aberta.
  • 1999 — Solibri é lançado na Finlândia, com soluções de análise BIM.
  • Anos 2000 — Cingapura estabelece padrões de legislação baseados em processo de BIM.

Consistência da informação

No modelo tradicional, projetos de arquitetura, estrutura, hidráulica, elétrica, ar-condicionado, paisagismo, interiores e luminotécnica são desenvolvidos individualmente. Os documentos são independentes entre si — e cada alteração numa planta obriga o operador a atualizar cortes, fachadas e especificações.

Num processo BIM, as informações estão concentradas em um único modelo integrado. Todos os documentos possíveis são extraídos desse modelo — e qualquer alteração se reflete automaticamente em todos os documentos derivados.

As seis características de uma simulação BIM

Segundo a definição da M. A. Mortenson Company (apud Eastman et al., 2008), uma simulação BIM legítima deve reunir seis atributos:

  • Digital — não é mera representação gráfica; é paramétrica e tridimensional.
  • Espacial — três ou mais dimensões, para simular o processo.
  • Mensurável — quantificável e dimensionável.
  • Abrangente — reúne comportamento de sistemas, sequência executiva e custos.
  • Acessível — para toda a cadeia produtiva; interoperável entre plataformas.
  • Durável — utilizável em todas as fases do empreendimento.

Do 3D ao nD

O modelo integrado deixa de ser apenas geometria e passa a suportar camadas sucessivas de informação:

  • 3D · visualização, compatibilização, análise, medição, simulação de métodos construtivos e planejamento do canteiro.
  • 4D · cronograma e sequência de obra, fases de implantação.
  • 5D · estimativa de custos e integração de empreiteiros.
  • 6D · operação e manutenção do edifício.
  • nD · desempenho, sustentabilidade, ciclo de vida e o que vier a seguir.

Interoperabilidade — o campo de batalha

Um processo BIM pressupõe o envolvimento de vários agentes ao longo de todo o ciclo de vida da edificação. Por isso, interoperabilidade — a capacidade de os modelos conversarem entre si em formatos abertos, como o IFC — é a condição básica para que o método se realize na cadeia produtiva.

Muitos dos problemas da construção civil ocorrem por falta de comunicação e de integração entre pessoas e documentos.

Turk et al., 1994

A mudança no processo de trabalho

Dentro desse novo panorama, escritórios de projeto precisam reorganizar equipes, investir em hardware e software, treinar profissionais em novos fluxos e incorporar disciplinas antes tratadas como paralelas — engenharia de instalações, cálculo, orçamento, cronograma — no mesmo modelo.

Os desafios ainda são grandes: além do treinamento e do investimento tecnológico, é preciso avançar na interoperabilidade dos softwares e trazer as indústrias de insumos para dentro do processo — com produtos disponíveis em modelos 3D, parametrizados e interoperáveis.


Artigo originalmente publicado em arq.urb, nº 4 — 2º semestre de 2010, por Miriam Roux A. Addor, Miriam Dardes de Almeida Castanho, Henrique Cambiaghi, Joyce Paula Martin Delatorre, Eduardo Sampaio Nardelli e André Lompreta de Oliveira. Editado e adaptado para leitura digital pela redação da ARCHIBRASIL.

ARCHIBRASIL

Receba nossos conteúdos editoriais diretamente no seu e-mail.