§ 05 · Urbanismo

Acessibilidade além da rampa: cidade, edifício e o direito ao espaço

Uma leitura sobre acessibilidade como princípio de projeto — do objeto ao espaço urbano — a partir de um ensaio de José Antonio Lanchoti.

Publicado em
06 dez 2025
Leitura
12 min
Autor(a)
José Antonio Lanchoti
Pessoas em cadeiras de rodas transitando por uma rampa de acesso em uma área externa.
Rampa acessível em área externa — inclinação, patamares e corrimãos em duas alturas garantem uso autônomo.

Hoje em dia, ouve-se muito falar sobre acessibilidade. Mas, afinal, o que essa palavra realmente significa — sobretudo no contexto de quem projeta cidades, edifícios e interiores?

Acessibilidade é um conceito amplo, especialmente quando associado à produção dos espaços construídos — sejam eles edifícios, ambientes internos, espaços urbanos ou áreas de uso coletivo. Apesar de muitas pessoas associarem acessibilidade apenas às pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, ela diz respeito a todas as pessoas, em diferentes momentos da vida.

Falar em acessibilidade é falar em inclusão, autonomia, segurança e dignidade. É pensar em espaços que possam ser utilizados por crianças, pessoas idosas, pessoas com deficiência permanente ou temporária, pessoas com carrinhos de bebê, gestantes e também por quem enfrenta limitações momentâneas.

No projeto arquitetônico e urbano

É fundamental que profissionais que atuam na arquitetura de edificações, na produção do espaço urbano, na arquitetura da paisagem e na arquitetura de interiores estejam atentos às questões de acessibilidade desde o início do projeto até a entrega da obra ao uso da população.

Ainda é comum imaginar que garantir acessibilidade significa apenas prever uma rampa de acesso ou instalar barras de apoio em um sanitário. Trata-se, na verdade, de um conjunto de critérios técnicos, funcionais e humanos que precisam ser pensados de forma integrada.

Uma rampa só será acessível se respeitar a inclinação correta, possuir patamares de descanso, piso tátil de alerta e corrimãos instalados em duas alturas — atendendo pessoas de estatura média, pessoas de baixa estatura, crianças e pessoas com nanismo. A instalação de barras no sanitário, por sua vez, não garante acessibilidade se não houver área para manobra e giro de uma cadeira de rodas, com espaço para a transferência autônoma.

Calçada com rampa de acesso a uma entrada de edifício.
A calçada acessível conecta lote e espaço público — não é um item isolado, é continuidade urbana.

Comunicação acessível e diversidade sensorial

Pessoas com deficiência visual — parcial ou total — utilizam o braille para identificação de ambientes, mas ele, sozinho, não é suficiente. As placas devem trazer também letras e números em relevo, pois muitas pessoas perderam a visão ao longo da vida e não foram alfabetizadas em braille.

Além das barreiras físicas, importa considerar as chamadas deficiências ocultas. Pessoas com TEA, TDAH e outros transtornos podem necessitar de ambientes mais acolhedores, com sinalização adequada e controle de estímulos sonoros e visuais, especialmente em locais de grande fluxo.

Interiores, mobiliário e objetos

A acessibilidade não se limita à arquitetura e ao urbanismo. Ela precisa estar presente no design de interiores, no mobiliário e nos objetos do dia a dia. Um espaço pode ser tecnicamente acessível do ponto de vista arquitetônico, mas se tornar excludente caso o mobiliário, a disposição dos elementos ou os objetos cotidianos não considerem a diversidade dos usuários.

  • Organização do espaço — circulação livre, com larguras adequadas para cadeiras de rodas, andadores e carrinhos.
  • Cor, contraste e iluminação — apoio à percepção espacial de pessoas com baixa visão, idosas ou com transtornos sensoriais.
  • Mobiliário dimensionado — bancadas com espaço livre inferior, poltronas com apoio e estabilidade.
  • Comandos intuitivos — maçanetas do tipo alavanca, interruptores em alturas adequadas, acionamentos sem força excessiva.

Direito, sustentabilidade e visão de futuro

Um exemplo claro da importância dessa visão está no envelhecimento da população brasileira. O Brasil possui hoje cerca de 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos. A previsão é que, em 2050, esse número chegue a cerca de 70 milhões, aproximadamente 30% da população.

Falar de acessibilidade é, acima de tudo, falar sobre pessoas — e sobre o direito de cada indivíduo de viver, circular, permanecer e se reconhecer nos espaços que compõem a cidade e o cotidiano. Não é um complemento ao final da obra: é princípio de projeto.

Cidades inclusivas são cidades mais resilientes e preparadas para o amanhã.

José Antonio Lanchoti

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